NOSSOS PRINCÍPIOS DE REFERÊNCIA

O Projeto Educativo Reabilitativo do Recanto Nossa Senhora de Lourdes considerando o parecer da ciência humana toma como modelo a pedagogia personalista cristã que pressupõe uma específica antropologia, linhas pedagógicas básicas e um peculiar estilo de relacionamento interpessoal.

Nossa Antropologia:

1º) Dignidade da pessoa humana

Toda pessoa e vida humana, mesmo a mais marcada pela doença ou por qualquer pobreza ou deficiência é preciosa diante de Deus e também diante de nós. Assim ela é envolta pelo mistério e o seu valor não é mensurável e sua realidade é extraordinariamente rica mesmo quando se trata de uma pessoa pobre no plano mental, pedagógico ou moral. Em todo o ser humano há sempre qualquer coisa a mais enquanto capacidades e potencialidades do que podemos conhecer e do que possam nos dizer a ciências humanas.

2º) O ser humano é uma realidade em relação e comunicação com o outro

Sua capacidade de comunicação e de amor, isto é, seu coração é sua maior riqueza e o centro propulsor de seu desenvolvimento e da sociedade. A pessoa é, sobretudo um coração que ama, isto é, que dá e que recebe amor. Don Guanella dizia que a pessoa juntamente com a resposta à suas necessidades, busca um coração que ama. Aberta constitucionalmente aos outros, precisa comunicar-se com eles, dar e receber atenção, estima, amor: ser membro ativo de uma família e de uma comunidade.


3º) A pessoa é frágil e débil por natureza

Em todo o ser humano há uma fragilidade de fundo existencial. Todo o ser humano é capaz de grandes idéias e grandes gestos de bondade, mas também de coisas terríveis. Em cada coração humano sempre existem luzes e sombras e tudo o que acontece de bem ou de mal sai do coração humano.

4º) A pessoa humana é um Ser a caminho do seu desenvolvimento

O pleno desenvolvimento da própria personalidade é um instinto-aspiração natural de cada ser humano, independentemente dos seus limites e diferenças. Assim cada intervenção reabilitativa encontra um terreno fértil, não uma terra estéril, porque corresponde a uma necessidade existencial do ser humano. Acreditamos, então, que cada criança e adulto deficiente é capaz de aperfeiçoamento e por isto cada tentativa é válida e em definitivo melhora a pessoa ainda que não conseguimos perceber os resultados.



Nosso Sentido de Educação e Reabilitação:

1º) Relação amistosa de ajuda

A educação, segundo o Padre Guanella, é especialmente “obra de coração ”. Na nossa concepção educativa isto significa que ela não se reduz a uma seqüência de ações cumpridas segundo una especifica metodologia para o crescimento da pessoa, mas que, antes de tudo, é uma relação desejada, querida e amistosa, na qual se oferece ao outro um cordial e constante acompanhamento na aquisição dos valores e uma ajuda para suas necessidades. Em tal relação, quem recebe educação responde com sentimentos de amizade e, por sua vez, envia mensagens e estímulos que modificam a personalidade do outro. O processo educativo, conseqüentemente, é um caminho em que se procedem juntos para a maturidade: cada um alimenta a própria identidade, mantém a própria função, e todos se ajudam e se sustentam mutuamente. De tal modo, ao buscar o crescimento do outro, tende-se também ao próprio, e, enquanto se favorece seu aperfeiçoamento, obtém-se também o próprio.

2º) Processo de autoformação

A educação é especialmente obra do coração, também no sentido que acontece no centro mais profundo do qual brotam sentimentos, pensamentos, intenções, projetos e decisões. Com efeito, educar e reabilitar significa, para nos, construir a pessoa a partir de seu interior e não plasmá-la a partir de fora, isto é, ajudá-la mediante um processo intencional e sistemático a ativar todas as suas possibilidades e a libertar-se dos condicionamentos que poderiam impedi-la de ser ela mesma. O crescimento das pessoas acontece sempre através da apropriação pessoal dos conhecimentos e dos valores, mesmo quando se trata de sujeitos com desvantagens sócio-culturais, com carências afetivas e com graves deficiências intelectuais. Com uma imagem expressiva, o Fundador falava que «o coração de uma pessoa é como terra de horta e de jardim que, cultivada, produz flores e frutos», querendo dizer com isso que educar é empenhar-se a tornar os indivíduos protagonistas do próprio desenvolvimento.

3º) Sentido da reabilitação

“ Handicap é uma condição de desvantagem que deriva de uma deficiência, que limita ou impede o cumprimento de uma função que é considerada normal para um indivíduo em relação a sua idade, sexo e condição sócio-cultural ” (Organização Mundial de Saúde -Genebra /1980 ). Em nosso sistema pedagógico a reabilitação tem um sentido muito amplo que se pode explicar através destes princípios:

a) não é curar, mas é tratar todos os problemas da pessoa portadora de deficiência qualquer que sejam e de qualquer forma se apresentam.

b) não é somente preencher aspectos deficitários ou reparar danos, sejam eles físicos, psicológicos ou sociais, mas acompanhar o projeto de vida da pessoa e, como dizia Don Guanella, “ ajudá-la a extrair de si tudo quanto é possível ”

c) não é tornar normal a situação da pessoa, isto é, sem deficiência, mas tornar normal a sua condição de vida, oferecendo-lhe a possibilidade de viver uma vida digna junto com os outros.

4º) Obra da graça de Deus

A educação e a reabilitação não são somente fruto dos esforços humanos, mas também obra da graça divina. Aliás, é precisamente esta graça, segundo nós, que dá fecundidade ao trabalho educativo e reabilitativo. Com efeito, Deus participa dela como protagonista, como Pai que educa continuamente cada um de seus filhos, agindo diretamente em seu coração. Ele tem uma relação educativa invisível, mas real e construtiva com sua criatura: a previne com seu amor e com seus dons, a estimula e encoraja a à colaboração, lhe abre novas veredas de crescimento e, incessantemente, lhe dá luz e energia para que possa prosseguir no caminho para a perfeição.Sua graça alcança as profundidades do coração, chegando lá onde não consegue chegar a habilidade humana, desperta os recursos mais escondidos e produz frutos que parecem prodigiosos aos olhos da própria pessoa.

5º) Dimensão social

A educação e reabilitação são também um processo social, enquanto acontecem na sociedade e por meio dela. Seu primeiro contexto natural é a família, cujo papel primário é o educativo. Com efeito, a ela compete por primeiro o direito-dever de ocupar-se da formação dos próprios membros e de procurar para este fim a colaboração das várias instituições sociais.Todavia, também a sociedade, em seu conjunto e em seus componentes institucionais, tem fundamentalmente uma vocação educativa, de modo que a educação e a reabilitação das pessoas se tornem seu compromisso prioritário e irrenunciável.Família e sociedade não são só sujeitos que cumprem intervenções educativas e reabilitativas e lugares em que estas se desenvolvem, mas também ambientes que, como tais, constituem uma proposta formativa.A serviço desta missão elas, em recíproca colaboração, devem colocar suas melhores energias, com a consciência de que construir pessoas realizadas e felizes seja a sua finalidade suprema e a empresa mais nobre que podem cumprir.

6º ) Caminho de esperança para todos

A educação é um direito inalienável de toda pessoa com problemas de deficiência, já que brotam de sua dignidade. É um direito inviolável também de toda instituição social, a partir da família, e de todos os povos, enquanto, agentes e veículos de formação, são eles mesmos chamados a um empenho de aperfeiçoamento e de crescimento. Este é, portanto, um caminho que a humanidade inteira deve percorrer e é uma possibilidade efetiva de crescimento que deve ser oferecida a todos, para que todos possam caminhar para a própria realização, mesmo quem é prejudicado nas funções psicofísicas, mas tem, em todo caso, a sorte de existir como pessoa humana e ser destinado à plenitude de vida.



Clima do Ambiente Educativo

1º) Familiaridade

O Recanto Nossa Senhora de Lourdes procura distinguir-se por uma atmosfera de cordial familiaridade, que torna atraente estar juntos e faz as pessoas se sentirem à vontade. Assim, se dá particular atenção a todos aqueles fatores que favorecem um clima de família: o sentido da acolhida, a generosidade no serviço recíproco, o interesse sincero para o crescimento de cada um. Cada relação se desenvolve de tal modo que as várias diferenças de idade ou de papel não impedem a conversa espontânea nas multíplices ocasiões quotidianas, cada um se sinta útil e estimado e encontre o modo de exprimir com naturalidade as suas capacidades. Como em uma boa família, os membros de nossa comunidade educativa possuem liberdade e autonomia razoável para desenvolver as próprias tarefas com criatividade e co-responsabilidade. Ao mesmo tempo, considera-se importante uma disciplina equilibrada e subordinada às necessidades do serviço: sua função é a de tutelar o bem comum do egoísmo, favorecer um desenvolvimento ordenado das relações entre as pessoas e das atividades e infundir em todos segurança.

2º) Compromisso e serenidade

Outras importantes características do nosso centro são um forte compromisso operativo e um grande espírito de sacrifício por parte de todos. Cada um procura dar a própria contribuição quotidiana de trabalho, de idéias e amizade para o crescimento das pessoas e o bem-estar moral e material do centro. As inevitáveis tensões, procuramos superá-las com o diálogo, com a aceitação cordial dos outros, com a confiança recíproca e a busca sincera do interesse comum, não do próprio. Diante de inevitáveis erros e falências, todos se empenham em abrir o coração para o perdão e para a compreensão, cientes de que errando se aprende, e, das experiências negativas, tirar uma lição para a vida. Valoriza-se, enfim, a festa, na variedade de suas formas, como linguagem expressiva acessível a todos, para manifestar aquela serenidade sempre reencontrada e partilhada, que contagia e une os ânimos.

3º) Moralidade e religiosidade

Em nosso centro procura-se manifestar uma forte tensão moral, que encoraja as pessoas na superação do mal e na aquisição dos verdadeiros valores. Neste todos esforçam-se em prever e afastar tudo o que ofende o sentido moral e propor atitudes e comportamentos que tornam bela a vida aos olhos de Deus e dos homens, como a retidão, a justiça, a compreensão recíproca, a concórdia e a solidariedade para com os mais fracos. Nosso ambiente alcança o clima mais desejado quando conseguimos perceber a presença de Deus Pai Providente; que infunde serenidade e confiança na vida, e todos se comprometem a viver dele e a testemunhar sua bondade. Nele devem, portanto, transparecer o louvor e o agradecimento contínuo ao Senhor, através da vida e da palavra, e ser evidente que, com o empenho de todos, está realizando-se o projeto de Deus.

 
 

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